Brainspotting
João Perestrelo
Dezembro 19, 2021
A eficácia de uma nova abordagem de terapia para o tratamento da Perturbação de Stress Pós-Traumático.

A Perturbação de Stresse Pós-Traumático (PTSD) é definida como “uma resposta retardada a um evento ou situação stressante (pequena ou de longa duração) de natureza excecionalmente ameaçadora ou catastrófica, que pode causar angústia generalizada em quase qualquer pessoa” (Organização Mundial da Saúde, 1992, p. 147).

Existem diferentes abordagens de tratamento para a redução dos sintomas de PTSD. Alguns tratamentos, já existentes, foram especialmente modificados para o tratamento de experiências traumáticas como por exemplo, a Terapia Cognitiva-Comportamental Focada no Trauma (Benkert, Hautzinger, & Graf-Morgenstern, 2008). Outros são desenvolvidos principalmente para o tratamento de PTSD como por exemplo, a Terapia de Dessensibilização e Reprocessamento através do Movimento Ocular (EMDR, Shapiro, 2001), a Terapia de Exposição Narrativa (NET, Schauer, Neuner, & Elbert, 2011) ou o Brainspotting (BSP, Grand, 2013).

Numa meta-análise inicial de Van Etten e Taylor (1998), as terapias medicamentosas mais eficazes, bem como as melhores terapias psicológicas, designadamente, EMDR e Terapia Comportamental, foram consideradas igualmente eficazes. Mais tarde, pelo menos quatro outras meta-análises confirmaram que o EMDR é empiricamente comprovado como o melhor tratamento para a PTSD, juntamente com as Terapias Cognitivo-Comportamentais (Bisson & Andrew, 2007; Bisson, Roberts, Andrew, Cooper, & Lewis, 2013; Bradley, Greene, Russ, Dutra, & Westen, 2005; Maxfield e Hyer, 2002; Seidler & Wagner, 2006).

O EMDR foi desenvolvido por Francine Shapiro (2001). É uma terapia bem estabelecida para o tratamento de PTSD ou de outras perturbações associadas a traumas. Consiste em oito fases, dentro das quais, as fases três a seis são etapas originais do EMDR. Após ser estabelecida uma boa relação entre o terapeuta e o cliente e depois da introdução de técnicas de relaxamento ou de outras técnicas de estabilização, o cliente é solicitado a reviver a situação traumática, enquanto se concentra nas pontas dos dedos do terapeuta que se movem num eixo horizontal na frente dos seus olhos. Num ambiente seguro e como parte integrante de um bom relacionamento terapêutico, o cliente revive a situação traumática e processa novamente os sentimentos, emoções, cognições e sensações corporais ligadas ao trauma (Schubbe, 2006).

A abordagem terapêutica Brainspotting (BSP). BSP é um modelo psicoterapêutico descoberto em 2003 por David Grand, Ph.D.. O autor conceitualizou BSP como um inteligente e consciente processo de sintonização do corpo. Neste contexto, desenvolveu um modelo de sintonização dupla. A base deste modelo é a articulação da presença sintonizada e relacional do terapeuta com o cliente. Esta sintonização relacional é vista como sendo focada e aprofundada pela sintonização neurológica derivada da observação e aproveitando diferentes aspetos dos reflexos de orientação visual do cliente (Corrigan e Grand, 2013).

Por meio do rastreio ocular lento, com um ou os dois olhos, os locais a focar (spots), para o BSP, são identificados.

Após o terapeuta e o cliente determinarem juntos o Brainspot, o cliente é direcionado para manter a sua atenção visual fixa na posição e observar atentamente o seu processo interno. No BSP, isto é chamado de Atenção Plena Focada, ocorrendo esta atenção num estado de ativação focada. A Atenção Plena Focada mantem-se, com o acompanhamento do terapeuta, até o cliente chegar a um estado de resolução.

O BSP é um método de tratamento focado que funciona através da identificação, processamento e libertação de fontes neurofisiológicas de dor emocional/corporal, trauma, dissociação e uma variedade de outros sintomas difíceis (Grand, 2011). No BSP, o terapeuta é encorajado a seguir o processo do cliente sem suposições. O terapeuta é orientado para confiar na capacidade neurológica humana inata para a autorregulação em condições ideais. Nesse contexto, o terapeuta de BSP também orienta o cliente para se tornar consciente do cérebro por meio de oportunidades de psicoeducação. Tanto o EMDR como o BSP tiveram sucesso no tratamento de clientes com experiências traumáticas. Portanto, os fatores comuns nas duas abordagens de tratamento e, em geral, para todas as terapias de trauma eficazes devem ser levadas em consideração (Wampold, 2015). Ambos os tratamentos começam com a anamnese e o planeamento da terapia (Schubbe, 2014). Em ambos os tratamentos, a personalidade e atributos particulares do terapeuta, a relação terapêutica, a necessidade de estabelecer a segurança pessoal e estabilidade, e o reprocessamento da experiência traumática, por exemplo, podem ter afetado o resultado alcançado.