Mindfulness na Vida diária, Escola e na Parentalidade

Mindfulness na Vida diária, Escola e na Parentalidade

Um pouco por todo o ocidente, temos vindo a assistir a uma demanda pelas práticas de Mindfulness.

Estas práticas de origem Budista, alicerçadas na consciência do Aqui e Agora e na contemplação livre de julgamentos, trouxeram um novo fôlego a uma população envelhecida pelos seus costumes cheios de passado e de futuro, mas sem nenhum Presente. 

Nos últimos anos, a ciência tem tentado estudar e explicar os mecanismos através dos quais o Mindfulness exerce os seus benefícios. Parece-nos assim que existe uma necessidade crescente de combinar estas práticas com os componentes inatos da natureza humana, decisivos na interpretação dos eventos e comportamentos individuais. Estes podem ser encontrados na aceitação da experiência, numa atitude repleta de compaixão pelo próprio e pelo sofrimento alheio, na capacidade de se auto observar sem julgamentos e ainda na ideia de que a mente se observa a si própria sendo capaz de compreender a sua natureza. 

Todos estes componentes podem ser incorporados no próprio conceito de Mindfulness que pode ser encarado como o coração ou o núcleo central dos ensinamentos e da filosofia Budista, baseando-se num estado de consciência que envolve a experiência plena do Aqui e Agora.

O Mindfulness é um aspeto central da tradição e psicologia Budistas com cerca de 3000 anos de história. A palavra “Mindfulness” tal como é usada nos textos antigos, é uma tradução para o Inglês da palavra em Pali sati que significa Consciência, Atenção e Recordação. A “Consciência” implica tornar-se consciente de tudo o que ocorre dentro e fora de nós, redirecionando a “Atenção” para os pensamentos e emoções em vez de tentar suprimi-los. 

Jon Kabat-Zinn, principal responsável pela integração do Mindfulness na Medicina ocidental, define-o como prestar atenção de uma forma especial – propositadamente, no Momento Presente e sem julgamento. 

As abordagens baseadas no Mindfulness colocam ênfase na importância dos recursos pessoais e na capacidade de um indivíduo restituir, a si mesmo, o equilíbrio, passando de um estado de stress e desequilíbrio para outro de grande harmonia e serenidade. 

A meditação e o Mindfulness têm sido amplamente estudados nas últimas décadas. O interesse crescente pelos mecanismos fisiológicos e sistemas neuronais subjacentes à prática da meditação suscitou uma pesquisa sem precedentes. Segundo os estudos, elevados níveis de prática resultam numa maior autoconsciência e num aumento da capacidade de permanecer mais tempo concentrado durante a meditação e nas atividades da vida diária. As alterações dos mecanismos que condicionam a atenção têm sido o foco de muita investigação. Estes demonstraram que os praticantes de meditação são capazes de manter uma atenção sustentada durante a prática relativamente a grupos controlo, sendo igualmente capazes de detetar com maior facilidade estímulos inesperados, apresentando uma menor habituação, isto é, uma menor tendência para exibir atividade neuronal reduzida em resposta a um dado estímulo repetido múltiplas vezes. 

Os estudos de neuro-imagem demonstraram uma maior ativação do Córtex Pré-frontal dorsolateral, área associada com a atenção e o planeamento. Outros achados frequentes nas investigações são o aumento da ativação do Córtex Cingulado, especialmente na subdivisão anterior que está relacionada com a integração da atenção, motivação e controlo motor e uma maior ativação da Ínsula que está associada à interoceção e à experiência do “self”. Os praticantes de meditação demonstraram igualmente possuir uma maior espessura cortical em zonas como a Ínsula Inferior, Córtex Sensorial e Córtex Pré-Frontal. A prática de Mindfulness foi igualmente associada a uma melhor regulação pré-frontal das respostas límbicas o que poderá explicar parcialmente a sua utilidade enquanto componente terapêutica. 

Várias organizações em todo o mundo têm oferecido formação em Mindfulness, reconhecendo, dessa forma, os seus vastos benefícios. 

Os níveis de felicidade das pessoas que praticam meditação regularmente tendem a ser mais elevados, algo que, medicamente, se afigura muito importante uma vez que se traduz numa vida mais saudável. As evidências científicas têm revelado que, quando praticada com regularidade, a meditação Mindfulness: 

1. Diminui consideravelmente os níveis de stress, algo solidamente demonstrado pelo efeito positivo nas ondas cerebrais; 

2. Reduz a probabilidade de desenvolver doenças cardíacas e hipertensão arterial ao diminuir o stress crónico nocivo; 

3. Permite que o indivíduo lide melhor com as suas dificuldades, fazendo com que controle as suas reações e tome decisões de forma mais consciente por se sentir mais tranquilo; 

4. Impede o desenvolvimento de sintomas depressivos e ansiosos ao afetar positivamente os padrões cerebrais subjacentes à sua progressão, permitindo que, ainda que surjam, sejam facilmente diluídos; 

5. Melhora consideravelmente a memória, evitando a sua deterioração, e estimula a criatividade; 

6. Demonstra eficácia na atenuação do impacto que as doenças graves têm no indivíduo, nomeadamente no cancro e na dor crónica; 

7. Melhora a capacidade de relacionamento interpessoal ao fazer com que os indivíduos se aceitem de forma mais compassiva; 

8. Impede a espiral negativa e, por vezes, imparável de pensamentos ruminativos e obsessivos; 

9. Ajuda a que a pessoa se aceite tal como é, compassivamente, melhorando a comunicação com os outros. 

MINDFULNESS NA EDUCAÇÃO

Por tudo isto, é notória a importância da inclusão do Mindfulness nas escolas, não apenas como um complemento ao ensino, mas sendo o núcleo do mesmo.

Não basta pedir aos alunos que prestem atenção, é necessário ensiná-los a fazê-lo de uma forma intencional e consciente e, com isso, alcançarmos uma maior regulação emocional dentro das salas de aula.

O frenesim do dia-a-dia, as rotinas familiares e as tarefas que exigem “fazer” em vez de “ser”, originam uma mente pouco focada e, por isso, bastante reativa. O resultado é visível quando se pede a um aluno que se sente quieto e que preste atenção durante vários minutos a um tema. Pouco tempo depois, a tensão e a inquietação começam a surgir, havendo uma necessidade crescente de procurar estímulos mais interessantes.

Se é professor e está a ler este artigo, sabe exatamente do que falo. Nós próprios, enquanto adultos, sentimos esta necessidade constantemente porque não fomos ensinados a permanecer com a inquietação e o desconforto e a observar o processo de “divagação” da nossa mente.

Completar os currículos escolares com práticas de Atenção Plena possibilita a aprendizagem destes mecanismos essenciais a um ser humano em desenvolvimento.

Não só os alunos beneficiarão das práticas, mas também os professores, dado que a modelagem indireta é um dos meios de aprendizagem social. Daí a importância dos técnicos fazerem formação e experienciarem, na prática, a vivência do Mindfulness. Ao se conseguirem regular emocionalmente de uma forma mais consciente e equilibrada, irão possibilitar uma regulação indireta por parte do aluno.

Todavia, estas práticas não se podem reservar apenas ao espaço da sala de aula. Devem fazer parte de uma rotina estruturada e comprometida com o desenvolvimento. Neste ponto de vista, os pais, enquanto educadores e seres humanos em processo, também eles com mentes divagadoras e, por vezes, caóticas, devem buscar compreender mecanismos mais adaptativos para permanecerem com o caos do dia-a-dia, sem se tornarem, eles próprios, nesse caos.

PARENTALIDADE CONSCIENTE

A Parentalidade Consciente é um assunto em voga, e implica que o foco seja retirado do comportamento como algo a corrigir. Ao invés, olhamos para o comportamento como uma forma de comunicação de necessidades. Tudo o que fazemos tem o intuito de satisfazer necessidades fisiológicas ou emocionais. Por vezes, nem os pais, nem os nossos filhos, conseguem realizar essa comunicação de uma forma saudável. A tarefa dos pais, passa a ser então a de satisfazer as necessidades dos filhos (e isso é diferente de satisfazer desejos) e guiá-los na forma de comunicarem essas necessidades.

A Parentalidade Consciente possibilita um autoconhecimento dos pais, e estes, ao se conhecerem, têm depois a possibilidade de poderem partilhar com os filhos a melhor versão de si próprios. Esta transformação pessoal tem por base o Mindfulness e a definição dos valores e intenções, o que significa que a Parentalidade Consciente é a vivência da parentalidade baseada na prática de Mindfulness e nos valores e intenções pessoais.  Esta prática diária vai permitir que consiga responder, mais facilmente, a questões como:

O que se está a passar com o meu filho neste momento?

De que é que o meu filho necessita?

O que é que eu estou a sentir?

Vai também possibilitar que esteja mais atento às situações que geram conflito e também reduzir os momentos de tensão causados, na maioria das vezes, por preocupações ou pensamentos relacionados com o passado ou o futuro.

A Parentalidade Consciente assenta em quatro valores base, são eles:

Igual Valor – os seus desejos, opiniões, necessidades e emoções são respeitados exatamente da mesma forma que os do seu filho.

Autenticidade – honrar e exprimir aquilo que somos em qualquer situação.

Respeito pela Integridade – refere-se a limites e a necessidades físicas e psicológicas. Vai permitir distinguir desejos de necessidades centrais e limites pessoais.

Responsabilidade Pessoal – assumir a responsabilidade pela sua vida, ações e escolhas, e é deixar que o filho assuma as responsabilidades adequadas à sua idade.

Educar uma sociedade para “ser” e não apenas para “fazer” é um desafio demasiado importante para ser posto de lado.

Termino este artigo com a certeza de que escrever sobre Mindfulness e a sua importância nos dias de hoje é imensamente difícil. Da mesma forma que o dedo que aponta a lua não é a própria lua, falar sobre Mindfulness está aquém da sua vivência.

Este artigo foi publicado, originalmente, na Revista Diversidades, n.º55, 2019, sobre a temática “A Educação Emocional”.